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FACTO 35

COMO CONHECI O SENHOR COMANDANTE ARTUR LAGE

Quando terminei o meu SMO (Serviço Militar Obrigatório) fui surpreendido com um convite para ingressar noutra "tropa", a dos Bombeiros Voluntários.

A situação, por inesperada, levou-me a pedir alguns dias para meditação, embora desde muito garoto sonhasse com o vir a ser Bombeiro.

Passei em revista o que ouvia comentar sobre o bom nível dos Comandos dos Corpos de Bombeiros do Concelho de Sintra - S. Pedro, Sintra, Colares, Almoçageme, Agualva-Cacém, Queluz e Belas - e fiquei assustado se teria capacidade para ombrear com tal gente.

Recorri ao apoio da então Inspecção de Incêndios da Zona Sul e lá fui empossado e comecei, com muitas dúvidas e apreensões, a ocupar os meus tempos livres servindo, como Bombeiro, a comunidade onde tinha nascido.

Pouco tempo depois fui indigitado para chefiar uma delegação de S. Pedro às cerimónias, creio que do aniversário, da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém.

Nos preparativos para a deslocação o meu Ajudante de Comando, pessoa muito experimentada e de bom senso, deu-me alguns conselhos e entre eles o referente ao Comandante de Agualva-Cacém, que não era "pêra fácil", que eu reparasse como ele tinha "afinadinho" o seu Corpo de Bombeiros e que estivesse de olho bem aberto para ver como tudo funcionava.

Lá fui, diga-se de coração apertado, mas, para meu espanto, fui recebido muito gentil e simpaticamente pelo Comandante Lage, que logo me deu alguns conselhos e se pôs à disposição para ajudar a resolver algum problema que a minha situação de "maçarico" poderia originar.

Foi um dos momentos em que a solidariedade a nível dos Bombeiros me marcou e me deu forças para continuar. E já lá vão mais de sessenta anos!

Por estas atitudes é que eu trato algumas pessoas por Senhor e assim passei a fazê-lo por SENHOR COMANDANTE LAGE, quando o encontrava ou o referia.

Albergaria-a-Velha, 12 de Abril de 2018


José António da Piedade Laranjeira
Ex-2.º Comandante dos B.V. de S. Pedro de Sintra
Ex-Presidente do Serviço Nacional de Bombeiros

FACTO 34

Nunca em momento algum da sua longa e brilhante carreira, quer enquanto Bombeiro quer na qualidade de Comandante, Artur Lage abdicou das competências que lhe estavam atribuídas.

Permanentemente presente, apesar de voluntário, seguia a par e passo a vida da Associação e do Corpo de Bombeiros, de tal maneira que dispunha de dois telefones directos ligados ao quartel: um na residência e outro no estabelecimento comercial de que era proprietário (Paulino Lage & Filhos, Lda.).

Nada acontecia nos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) que não fosse do seu conhecimento.

Atento a todos os movimentos, tanto em situações reais como simuladas, Artur Lage fazia sempre questão de chamar a si o comandamento das operações.

Defensor acérrimo de que a importância dos BVAC, no contexto da vida local, justificava uma atitude responsável, dinâmica e integrada, soube estabelecer o melhor relacionamento com as diferentes organizações de Agualva-Cacém, designadamente, ao nível do poder autárquico, afirmando o bom nome do todo institucional.

Em 29 de Maio de 1988, objectivado por inovar a já tradicional participação do Corpo de Bombeiros nas festividades anuais da freguesia, designadas por "Maio Popular", organizou um aparatoso simulacro de acidente de viação com vítimas encarceradas, seguido de fogo real, levado a efeito na grande área descampada que então existia no Largo D. Maria II (actual Mercado Municipal e Loja do Cidadão).

As duas fotografias que apresentamos mostram o Comandante Lage no seu posto, na última das quais munido de rádio portátil a fim de comunicar com os meios de socorro e, desse modo, dar cumprimento ao plano estratégico que havia concebido.

Para quem não o conheceu, era assim o nosso homenageado: uma personalidade marcante que se impunha, naturalmente, pela sua singular aptidão, zelo e diligência.


Texto: LMB
Fotos: Colecção Hélder Martins Moura

FACTO 33

Artur Lage foi, indiscutivelmente, até hoje, o rosto mais visível de credibilidade dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém.

Onde quer que estivesse, a sua presença confundia-se com a própria instituição, característica peculiar das grandes figuras. Ei-lo, pois, numa dessas inúmeras ocasiões, nos Voluntários de Queluz, durante um acto festivo, impondo divisas em novos bombeiros.

Acérrimo defensor do voluntariado e não menos apoiante da respectiva renovação, um dia, afirmou publicamente, fundamentado na sua experiência pessoal:

"Ser bombeiro é excitante, educativo e permite o desenvolvimento de uma mentalidade de fraternidade dedicada a todo o indivíduo, seja qual for a sua origem, a sua posição social, a sua ideologia e até o seu comportamento cívico.
O jovem quando se alista nos bombeiros está longe de saber as emocionantes situações que de início se lhe vão deparar, mas à medida que vai intervindo e verificando a utilidade das suas acções para com o semelhante, o seu entusiasmo aumenta, dedica-se cada vez mais ampliando os seus conhecimentos e, a breve trecho, torna-se um forte elo da extraordinária cadeia de solidariedade que os bombeiros constituem em contraste com a indiferença e o egoísmo."



Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Fernando Lage Cristo

FACTO 32

A relação entre os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) e a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) soma quase tantos anos como o período de existência de cada uma das instituições.

Estávamos em 1932 quando os BVAC aderiram à então co-denominada Confederação de Associações e Corporações de Bombeiros, recebendo o número 28 de inscrição.

Em razão disso a sua participação em congressos começou desde muito cedo.

Depois da primitiva presença no IV Congresso, (Tomar, de 26 a 30 de Julho de 1934), foi a vez de acompanhar o V Congresso (Espinho, de 9 a 13 de Julho de 1936). Neste estiveram, pelo Comando, Carlos Charbel Girardin, e pela Direcção, José Lourenço. Por sua vez, o Corpo de Bombeiros integrou a parada da reunião magna através dos bombeiros Eduardo Martins, Severo Francisco da Silva, Artur Lage, Aníbal Correia, Joaquim Barreira de Almeida, José Augusto de Assunção e Silva, Alberto de Almeida e Carlos Francisco Guiso.

Na ocasião, Artur Lage, com 24 anos, Bombeiro de 3.ª Classe, tomou um honroso lugar. Assim documenta a imagem publicada, extraída a partir de um vídeo disponível na Cinemateca Digital, da Cinemateca Portuguesa, relativo ao V Congresso Nacional de Bombeiros. Detectámo-lo integrado na Guarda de Honra ao estandarte da LBP, desfilando numa das principais artérias de Espinho, em ambiente apoteótico. Um momento particularmente importante, ocorrido na tarde do dia 12 de Julho de 1936, observando as instruções para a parada, que determinaram:

"Cada Corporação em Parada destacará um Bombeiro devidamente equipado, a-fim-de constituir, sob as indicações daquele Conselho Administrativo, a Guarda de Honra ao estandarte da Liga, numa formação de dois pelotões, entre os quais marchará o piquete que conduz o estandarte."

O livro do Congresso, da autoria do Comandante Álvaro Valente (dos Bombeiros Voluntários do Montijo e que no ano de 1938 esteve em Agualva-Cacém representando a Liga dos Bombeiros Portugueses na homenagem ao saudoso Bombeiro Mário Lobo, onde proferiu um emotivo discurso), descreve aquele instante nos seguintes termos:

"A passagem desta Guarda de mais de 100 Voluntários e Municipais, das mais afastadas localidades, todos unidos na mais estreita camaradagem e solidariedade, fardas diversas, capacetes diversos, equipamentos diversos, constituiu um espectáculo sem precedentes, que comovia e impressionava profundamente."

Na verdade, foi a primeira vez, em paradas organizadas pela Confederação, que tal aconteceu, marcando, segundo relato da época, "o respeito, a dedicação das Corporações inscritas pelo símbolo que lhes fôra confiado, como que a significar que o defenderiam com orgulho e intrepidez nos piores transes e nas maiores emergências".

A representação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, que formou à frente dos demais corpos de bombeiros presentes (mais de 100), uma vez distribuída por ordem alfabética, incluiu também o desfile de um Auto Pronto-Socorro.


Pesquisa/Texto: LMB

FACTO 31

Elevar o nome dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), pelas melhores razões humanas, solidárias e técnico-operacionais, foi sempre a maior aspiração de Artur Lage.

Por isso mesmo, em 1951, na qualidade de Ajudante de Comando, decidiu preparar bombeiros e cadetes para representarem os BVAC no Concurso Desportivo dos Bombeiros do Distrito de Lisboa (concurso de manobras), organizado pela Liga dos Bombeiros Portugueses.

O evento, realizado a 15 de Julho, decorreu no Campo Desportivo do Estoril-Praia, perante numerosa assistência e a apreciação de um conceituado júri constituído pelo Delegado da Inspecção de Incêndios da Zona Sul no concelho de Cascais, Francisco Pedro Arraya, pelo Chefe de 1.ª, Domingos Pais, e pelo Chefe de 2.ª, Mário de Almeida, ambos do então Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.

Os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém registaram uma honrosa participação, tendo-se destacado na Prova Linhas de Água (3.º lugar), na Prova Tema (4.º lugar) e na Prova de Cadetes (3.º lugar ex-aequo).

Artur Lage, também instrutor dos BVAC e que há quatro anos formara e dirigira o primeiro Corpo de Cadetes, viu assim, mais uma vez, devidamente compensada, toda a sua dedicação e competência, tanto que as provas compreenderam a participação de corpos de bombeiros com maior projecção e antiguidade.

A 15 de Julho de 1951, o nosso homenageado e todo o pessoal sob o seu comando (na foto) deixaram bem patente que são os homens que fazem as instituições e estas valem aquilo que os primeiros lhes devotarem!


Texto: LMB

Nota: Corpos de Bombeiros participantes no Concurso Desportivo dos Bombeiros do Distrito de Lisboa: Agualva-Cacém, Albarraque, Alenquer, Algés, Amadora, Barcarena, Belas, Carcavelos, Cascais, Dafundo, Estoril, Loures, Malveira, Paço de Arcos, Parede, Queluz, S. Pedro de Sintra, Sintra, Torres Vedras e Odivelas.

FACTO 30

Foto rara do Comandante Artur Lage (armado, de capacete, cinturão e machado), gentilmente cedida pelo seu autor, José Neto, ex-dirigente dos Bombeiros Voluntários de Alcabideche, coleccionador e pesquisador da história dos bombeiros portugueses.

Foi tirada na vila de Cascais, no dia 5 de Outubro de 1986, quando o nosso homenageado teve a subida honra de ser o Comandante-em-Chefe do desfile de encerramento do XXVII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses.

Vêmo-lo, no máximo aprumo, envergando o seu uniforme de gala, de harmonia com as disposições regulamentares da época, após ter-se dirigido ao Presidente da República, Mário Soares, a fim de solicitar autorização para dar início à luzidia parada de 2 mil bombeiros de todo o país.

Destacam-se, na tribuna de honra, colocada defronte do Hotel Baía, para além do Chefe de Estado, o Presidente do então Conselho Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses, Comandante Manuel Manta, o Presidente da Mesa dos Congressos da mesma Confederação, Comandante João Manuel Ferreira, e o Presidente do Serviço Nacional de Bombeiros, José António Laranjeira, vultos não menos grandes da Causa dos Bombeiros em Portugal, o último dos quais admirador confesso da vida e obra do Comandante Artur Lage.


Texto: LMB
Foto: José Neto

FACTO 29

O Comandante Artur Lage foi também um homem de palavra fluente, defendendo e proclamando desse modo a Nobre Causa dos Bombeiros.

Frequentemente convidado para os actos festivos de associações/corpos de bombeiros congéneres, ei-lo neste registo fotográfico, de 1978, a intervir na sessão solene comemorativa do 53.º aniversário da então denominada Corporação de Bombeiros Voluntários de Belas.

Sob o seu comando, muitas foram as saídas registadas pelos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) para a área dos Bombeiros Voluntários de Belas (BVB), a pedido destes, aquando da deflagração de violentos incêndios florestais.

De registar que tais circunstâncias incidiram de modo muito positivo no fortalecimento das relações institucionais e de amizade entre os dois corpos de bombeiros, ajudando a desfazer rivalidades de outrora.

Gratos e reconhecidos pelo apoio recebido, os BVB, ao tempo comandados por Edmundo de Oliveira e Silva, igualmente presente na foto, distinguiram, em 1976, com a sua Medalha de "Serviços Distintos", Grau Ouro, quer os BVAC, quer o próprio Comandante Lage.

Sensibilizado, escreveu, a propósito, pouco tempo depois, o nosso homenageado, no relatório de actividade do Corpo de Bombeiros:

"O ano de 1976 foi para este Corpo de Bombeiros, infelizmente, fértil em trabalho, algum do qual de grande responsabilidade, mas também o foi, felizmente, em progresso e em prestígio alcançados.
Uma estreita colaboração entre o Comando, Voluntários e Corpos Gerentes, com destaque para a Direcção, com a qual mantivemos sempre contacto efectivo, permitiu uma útil prestação de socorros, não faltando em quaisquer circunstâncias o apoio moral e financeiro para que dispuséssemos sempre de material actuante.
Conseguimos assim desempenharmo-nos cabalmente da nossa missão, não só na zona de acção que superiormente nos está atribuída, mas ainda acorrendo prontamente sempre que solicitado o nosso auxílio por corporações limítrofes. Por tal atitude e como reconhecimento pela colaboração prestada nos incêndios na sua área, em várias ocasiões, foi-nos atribuída pela Corporação dos Bombeiros Voluntários de Belas a sua Medalha de Ouro de Serviços Distintos."


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO 28

Há 42 anos, no seguimento da inauguração oficial do seu novo quartel-sede (11 de Julho de 1971), considerado como sendo um dos mais modernos e funcionais do país, bem como de novas viaturas - duas auto-macas (Peugeot 404); um moderno pronto-socorro ligeiro todo-o-terreno (GMC); um auto-tanque (Scania); e um auto-reboque (Willy's) - os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) eram elevados a uma condição especial, por mérito próprio.

Em razão da sua demonstrada operacionalidade e comprovada eficiência, o então Inspector de Incêndios da Zona Sul, Coronel Rogério Jaime de Campos Cansado (na foto, Comandante do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa entre 1966 e 1974), figura proeminente do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios, tutelado pelo Ministério do Interior, decidia que os BVAC não teriam zona de intervenção definida.

De acordo com a mesma decisão, também ela reveladora de absoluta confiança na competência do Comandante Artur Lage, o Corpo de Bombeiros ficava responsabilizado de intervir em todos os sinistros para que fosse superiormente solicitado, se necessário, até ao limite da respectiva capacidade.


Fonte: Ângelo Reis
Texto: LMB
Foto: Museu do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa

FACTO 27

Quatro anos após ter sido condecorado com o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, Artur Lage teve a subida honra de ser o Comandante-em-Chefe do desfile de encerramento do XXVII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Cascais, de 1 a 5 de Outubro de 1986.

Na qualidade de comandante mais antigo do distrito de Lisboa, fê-lo com a máxima distinção, encabeçando um contingente de 2 mil homens e mulheres, em representação dos corpos de bombeiros do todo nacional.

Também sobre este momento da sua vida estamos em condições de dar o nosso testemunho. Tomámos lugar na tribuna de honra, colocada defronte do Hotel Baía, e por isso acompanhámos tudo muito de perto, inclusive, o primeiro instante em que, transportado no Auto-Comando dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, se dirigiu junto do então Presidente da República, Mário Soares, a fim de solicitar autorização para dar início ao desfile. Uma vez autorizado, retirou-se, vindo a tomar posição à frente das forças apeadas e motorizadas, concentradas próximo da Cidadela, que aguardavam a sua voz de comando.

Entretanto, através do sistema sonoro instalado no espaço público, iam ecoando os acordes de uma marcha militar, interpretada pela Banda dos Bombeiros Voluntários de Loures. Começara a tão esperada e apoteótica manifestação das virtualidades dos bombeiros de Portugal!

Enquanto isso, na tribuna, aumentava a expectativa. Porém, a mesma viria a ser imediatamente desfeita quando avistada a garbosa figura do Comandante Artur Lage, auto-transportado, secundado por centenas de aprumados porta-estandartes. Dir-se-á que a união e a simbologia perfeitas, de Honra e Glória, desfilaram ali perante os nossos olhos num momento único de consagração na vida dos bombeiros portugueses e de um dos seus mais ilustres servidores.

Deste facto é bem representativa a capa da biografia do homenageado, a partir de uma imagem captada pelo investigador Victor Neto (livro editado em 1999, pela Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, da autoria de Jorge Trigo e Luís Miguel Baptista, ao tempo Presidente da Mesa da Assembleia Geral e Vice-Presidente da Direcção, respectivamente, que contou com os patrocínios do Governo Civil de Lisboa, da Câmara Municipal de Sintra, da Liga dos Bombeiros Portugueses e da Junta de Freguesia de Agualva-Cacém).


Texto: LMB

FACTO 26

Em 1982, o Comandante Artur Lage atingiu 50 anos de bombeiro.

O facto foi dignamente assinalado através da atribuição do Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).

Refira-se que tal distinção tinha uma importância totalmente distinta, comparada com aquela que verificamos nos dias de hoje. Era o galardão máximo dos bombeiros em Portugal!

Quase raro na carreira de um bombeiro, a avaliar pela baixa média de vida da população de então, o Crachá de Ouro destinava-se a distinguir os elementos dos corpos de bombeiros que atingissem 50 anos de relevantes serviços prestados à causa.

Por outro lado e pela sua relevância, a entrega da mesma condecoração ocorria tradicionalmente em Congresso Nacional da LBP, na presença, entre outras entidades, do Presidente da República e de membros do Governo, constituindo por isso também um momento de especial júbilo.

Artur Lage não foi excepção, relativamente ao citado contexto protocolar.

Teve o autor do presente texto o ensejo de testemunhar a imposição do Crachá de Ouro ao homem de H grande que aqui se homenageia. Aconteceu na Figueira da Foz, em 10 de Outubro de 1982, durante a sessão de encerramento do 25.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, realizada no salão do Casino local, perante numerosa assistência dos legítimos representantes das associações e corpos de bombeiros do país, para além de elementos de delegações estrangeiras. Chamado ao palco, retemos na memória a garbosa figura do Comandante e bem assim a imponente continência com que, uma vez perfilado, cumprimentou as entidades que haviam tomado assento na mesa de honra, entre as quais o Ministro da Administração Interna, Ângelo Correia. Coube ao Presidente da República, General Ramalho Eanes, impor a mais que merecida insígnia, ao que se sucedeu uma forte ovação, de pé, por parte de todos os congressistas e convidados.

A atribuição do Crachá de Ouro a Artur Lage decorreu de uma proposta do Conselho Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses, aprovada por aclamação durante o mesmo Congresso.

Resta acrescentar que aquela distinção honorífica, orgulhosamente sentida e vivida pelos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, reforçou o prestígio do "nosso" Comandante, passando a estar sujeito, por determinações regulamentares, às honras somente prestadas aos melhores dos melhores bombeiros de Portugal.

» Excerto das Conclusões do 25.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses


Texto: LMB

FACTO 25

Estratega de créditos firmados, somente comparável, em nosso entender, com os generais vitoriosos que elevaram os mais poderosos exércitos da História, Artur Lage foi um operacional de mão cheia.

Sob o seu comando e fruto também da dedicação e competência dos seus homens, não havia fogo que resistisse. Cada directriz emanada por si - com a natural segurança que irradiava da sua forte personalidade e liderança, porque dominava, desusadamente, toda a técnica - era garantia de sucesso e o bastante. Note-se, pois, as poucas ou quase mesmo inexistentes vezes em que os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) tiveram necessidade de recorrer ao apoio de corpos de bombeiros congéneres para os apoiar nos sinistros ocorridos na sua área de actuação própria.

A foto que publicamos, tirada, tanto quanto nos parece, numa fase de rescaldo, apresenta-nos o Comandante Lage, de costas, envergando a sua habitual farda de trabalho, o que várias vezes testemunhámos em pleno teatro de operações: fato macaco, botas de borracha, cinturão de argolas com pala e machado, e bivaque.

No Verão de 1953, a 7 de Agosto, por ocasião de um grande incêndio deflagrado na Serra da Carregueira, o "Diário de Notícias" destacava assim a acção do nosso homenageado:

"Tudo ardia - pinheiros, eucaliptos e restolho - em vasto braseiro envolvido pelo fumo. Era impossível suportar o calor. O crepitar das chamas tornava-se, de minuto a minuto, cada vez mais apavorante. Mesmo assim, os soldados, munidos de pás e ramos de árvores, lutavam desesperadamente, não para debelar o sinistro, o que se tornara impossível, mas para o limitar em certa área. 
O fogo alastrava. Do Monte dos Penedos Pardos passou ao pequeno vale e galgou o Monte Suímo, presa fácil das chamas, por ali só haver mato e restolho. Poucos minutos bastaram para que a vegetação da altura em que estivera instalado o posto de observação dos exercícios militares ficasse completamente calcinada. E o fogo prosseguia, sempre mais além, até que chegou aos pinheiros próximos do Casal do Suímo, constituído por três casas, duas de habitação e uma destinada à recolha de animais. Para evitar que as edificações fossem destruídas, os bombeiros de Agualva-Cacém, coadjuvados pelos do Orfanato de Santa Isabel (Albarraque), lutaram arduamente. Primeiro, iam batendo no mato, os homens dispostos em filas, com ramos, enquanto trabalhadores, com enxadas, limpavam o terreno vizinho das casas de mato e restolho. Mas o fogo nem mesmo assim foi detido. Prevendo essa hipótese, o comandante sr. Artur Lage tinha de prevenção dois auto-tanques, cuja água foi então utilizada. E conseguiu-se, assim, evitar que o Casal fosse destruído."

Sabe-se que, neste incêndio, intervieram 47 elementos e 4 viaturas dos BVAC.


Pesquisa/Texto: LMB

FACTO 24

O mês de Maio teve sempre um significado especial para os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC). E, por conseguinte, para o Comandante Artur Lage. Primeiro, devido à realização da Feira de Agualva, o que durante muitos anos implicou a necessidade de escalar pessoal para o Posto de Socorros Cruz Roxa, face ao risco de eventuais acidentes nos divertimentos, e, depois, em virtude da organização do habitual simulacro de incêndio integrado no "Maio Popular", momento gerador de forte impacto, elevado à condição de verdadeiro elo de ligação com a população.

Refira-se que "Maio Popular" foi a expressão escolhida pela Junta de Freguesia de Agualva-Cacém, após o 25 de Abril, para designar um vasto programa de actividades, paralelo à secular feira, destinado a mostrar as potencialidades locais, nos domínios do desporto, da cultura e do recreio, consubstanciadas nas várias associações e colectividades.

Como instituição de vocação polivalente, os BVAC estiveram sempre na linha da frente das mencionadas actividades, concorrendo para o efeito o seu afirmado prestígio e, ainda, o honroso facto de Artur Lage ter sido um dos fundadores da freguesia, criada em 15 de Maio de 1953.















Ficou célebre, por exemplo, na abertura de cada edição dos festejos, o desfile do Corpo de Bombeiros, acompanhado da Fanfarra e do Corpo Auxiliar Feminino, deixando toda a formatura, nas artérias por onde passava, uma indescritível marca de garbo, disciplina e credibilidade.

Nessa ocasião, de modo especial, sobressaía o orgulho e a satisfação do nosso homenageado, que não abdicava de o seu pessoal se apresentar devidamente uniformizado. Era "AGUALVA-CACÉM" - legenda que se destacava no braço de gloriosas gerações de bombeiros - no seu melhor! Mas também quando do dia do simulacro, na parada do quartel, ponto alto da exibição pública da destreza do Corpo Activo, apoiado por novas e modernas viaturas, beneficiando da maior fase de reestruturação e expansão dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, a ponto serem considerados, pelas entidades tutelares, como um dos corpos de bombeiros mais bem apetrechados e eficientes do país. As imagens falam per si. 


Texto: LMB
Fotos: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO 23

Foi sob o comando de Artur Lage que se deu a criação do Corpo Auxiliar Feminino dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (CAFBVAC), após um curso de socorrismo da Cruz Vermelha Portuguesa. Decorria o ano de 1972.

A primeira apresentação pública do CAFBVAC, composto por 12 elementos, ocorreu por ocasião da comemoração do 41.º aniversário da instituição, sendo oficialmente assinalada com a entrega de um guião à respectiva formação.

A foto em presença reporta-se a outra época (21 de Março de 1976, data em que foram inauguradas três novas viaturas: um Auto Pronto-Socorro de Nevoeiro, International; um Auto-Tanque, Mercedes; e uma Auto-Maca, Hanomag). Porém, espelha bem a existência de uma vertente que chegou a atingir forte implantação, impondo-se pela mais-valia dos serviços prestados, inclusive a corpos de bombeiros congéneres, aquando da ocorrência de violentos incêndios florestais. Era da sua responsabilidade, em tais circunstâncias, garantir apoio logístico, nomeadamente a preparação e entrega de mantimentos ao pessoal combatente. De igual modo, os seus elementos cooperavam com o serviço de saúde, acompanhando o transporte de doentes e sinistrados nas auto-macas.

Em síntese, a acção do CAFBVAC correspondia ao enquadramento previsto no então Regulamento dos Corpos de Bombeiros, que previa: "Os indivíduos do sexo feminino poderão fazer parte dos quadros dos corpos de bombeiros nos serviços de enfermagem, condução de viaturas, cantinas, secretaria e outros semelhantes."

Paralelamente, e porque é justo mencionar, existiu durante alguns anos a Comissão de Senhoras Pró-Bombeiro, que agia em articulação com o Corpo Auxiliar Feminino. Sobre o facto, recordamos as palavras de reconhecimento escritas pelo Comandante Artur Lage, no relatório de actividade referente ao ano de 1974:

"Não pode o Comando também esquecer a assistência prestada pela Comissão de Senhoras Pró-Bombeiro, organização inédita e quasi desconhecida da massa associativa, que acompanhada pelo Corpo Auxiliar Feminino nos levou aos pontos mais afastados e difíceis de transpor os meios adequados para amenizar os efeitos da fome e da sede, dando-nos forças para continuarmos até final e regressarmos ao quartel sem grandes desfalecimentos."


Pesquisa/Texto: LMB

FACTO 22


Envergando, elegantemente, a sua farda de gala, o prestigiado Comandante Artur Lage faz as honras da casa ao Ministro do Interior, Alfredo Santos Júnior, aquando da presença deste em Agualva-Cacém para presidir à inauguração da 2.ª fase do quartel-sede da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém.

Assim aconteceu no dia 4 de Dezembro de 1966, pelas 16h30, pormenor horário avançado pelo "Jornal de Sintra", no relato do evento, assinado por J. Nicolau Santos.

"Tal construção, que constituía uma grande aspiração da população, representava também uma necessidade imperiosa, em face da insuficiência das instalações do actual quartel destes esforçados voluntários."

As palavras acima transcritas foram redigidas por Artur Lage e constam num texto noticioso de sua autoria, também publicado no "Jornal de Sintra", precisamente na edição de 6 de Dezembro de 1966. E detendo-se nas novas instalações, informa: "O edifício a inaugurar é constituído por amplo parque de viaturas e ginásio, estando as restantes dependências, como sejam, gabinetes, biblioteca, balneários, camarata, vestiário, casa-escola, etc., incluídas na 1.ª fase, já em funcionamento."

O nosso homenageado, como homem grato e reconhecido que era, e pondo sempre acima de tudo o interesse institucional, mesmo quando menos se identificava com algo ou alguém, salienta na notícia que "para a concretização de tão grande obra contribuiu decisivamente o presidente da direcção, sr. Manuel Rodrigues, que há anos vem desenvolvendo grande actividade e muito esforço, merecendo a maior admiração da população de Agualva-Cacém".

Acreditamos, sem dúvida alguma, que a data foi intensamente vivida pelo Comandante Artur Lage, pois, para além da 2.ª fase do quartel, entraram ao serviço na mesma ocasião três novas viaturas: "uma ambulância, um auto-tanque e um carro ligeiro".


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO 21

Artur Lage assumiu o comando efectivo dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) em 17 de Abril de 1955, data da sua tomada de posse.

Contudo, desde 1953, com a categoria de Ajudante de Comando, vinha exercendo as funções de Comandante Interino.

Sucedeu ao Comandante António Gomes Fragoso, um dos membros fundadores dos BVAC, que se encontra presente, a seu lado, na foto publicada (tirada a 12 de Outubro de 1952, aquando da inauguração do novo Auto Pronto-Socorro N.º 2, marca Chevrolet.

"Ascendendo a este posto por méritos próprios, há muito que lá estaria por direito próprio, se não fosse - na exacta compreensão dos deveres - a sua recusa de ascender ao mesmo posto. Foi sempre essa recusa: 'que com ele já contavam; que vissem se arranjavam outro'.
Agora, porque tal situação já há muito se prolongava, houve mister tomar uma decisão e - justiça se faça - foi bem tomada."

As palavras acima transcritas constam num artigo da autoria de Carlos Bernardino, publicado no "Jornal de Sintra", de 5 de Junho de 1955, que destaca ainda, ao reportar o acto de posse: "Houve discursos, reflectindo a satisfação de se ver à frente do Corpo de Bombeiros um homem que sempre deu mostra do seu dedicado valor, da sua coragem e da sua abnegação, já medalhado diversas vezes por feitos a bem da Humanidade."

Por seu lado, em notícia sobre o mesmo facto, a Voz de Sintra, no dia 9 de Maio de 1955, referia que o Comandante Artur Lage era "possuidor duma brilhante folha de serviços" e um "voluntário competentíssimo", especificando, "quer pelo elevado espírito audacioso e de grande abnegação, quer ainda pela forma como instrui e sabe actuar perante os seus voluntários".

Ao tempo, o Corpo de Bombeiros dispunha de 50 elementos, os quais na oportunidade envergaram novos uniformes de trabalho - blusões de fazenda azul, casacos impermeáveis, botas de borracha e suestes.

Para coadjuvar Artur Lage na liderança dos destinos operacionais, também a 17 de Abril de 1955 tomou posse do cargo de Ajudante de Comando o Chefe Joaquim Barreira de Almeida, "voluntário garboso, de dedicação e assiduidade extrema, cumpridor absoluto dos deveres da sua divisa".


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO 20

Em 18 de Novembro de 1984, o Comandante Artur Lage sentia e vivia a elevação da operacionalidade dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), ao experimentar a nova auto-escada recém-inaugurada naquela data, também celebrativa do 53.º aniversário da instituição.

Baptizada com o nome "A Desejada", pela razão de constituir um desejo há muito tempo almejado, a referida viatura teve honras especiais na entrada ao serviço, sendo amplamente demonstrada, em ocasiões distintas, à população da área de intervenção do Corpo de Bombeiros.

Marco de assinalável progresso dos BVAC, recorda o jornal "Correio da Manhã", de 19 de Novembro de 1984, que "em 1976 o actual comandante da corporação aniversariante, Artur Lage, manifestava a entidades superiores a falta que fazia, no Cacém, uma auto-escada. Os edifícios subiam a olhos vistos, e na mente dos bombeiros aparecia a preocupação por saberem que, perante um incêndio num andar elevado, eles eram impotentes para fazer o que quer que fosse".

A Câmara Municipal de Sintra foi a entidade que, passados menos de 10 anos sobre tal manifestação, teve um papel preponderante na viabilização do novo meio socorro, sob a condição de este poder servir os demais corpos de bombeiros do concelho. Não só comparticipou a sua aquisição, despendendo 11 287 contos, como entendeu atribuir um subsídio anual destinado a cobrir os encargos com os salários de quatro motoristas, número considerado indicado para garantir a pronta saída da viatura, nomeadamente nos períodos diurnos de menor disponibilidade do voluntariado.

Adquirida na então Alemanha Federal, a auto-escada, marca Magirus, esteve exposta, dois meses antes de ser inaugurada,  no 26.º Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, realizado em Viana do Castelo. A este facto refere-se a foto acima publicada, onde o Comandante Artur Lage se encontra ladeado por João de Magalhães e Sousa, presidente do então Conselho Executivo da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, e pelo Ajudante de Comando, na situação de Honorário, Joaquim Barreira de Almeida.


Pesquisa/Texto: LMB
Fotos: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO 19

Novembro e Dezembro foram sempre meses de apreensão para os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC), devido à cíclica ocorrência de inundações.

1937, 1953, 1967 e 1983 constam como anos dramáticos, pois a subida do caudal da Ribeira das Jardas e de seus afluentes teve efeitos nefastos, quer na perda de vidas humanas (nos dois primeiros), quer na destruição de habitações e estabelecimentos comerciais.

Artur Lage interveio em todos os momentos adversos.

Face ao seu desempenho no socorro às vítimas do temporal verificado a 16 de Dezembro de 1953, de resto fortemente sentido nos arredores de Lisboa, mereceu da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) a Medalha de Prata, de Três Estrelas. Era, então, Ajudante de Comando, embora exercendo as funções de Comandante Interino.

A distinção, conferida pelo Conselho Administrativo e Técnico da LBP, em 5 de Maio de 1954, ficou a dever-se, concretamente, segundo o diploma de certificação, à "coragem e espírito de abnegação manifestados no salvamento de várias pessoas em situação crítica".

A sua imposição aconteceu a 14 de Novembro de 1954, durante as comemorações do 23.º aniversário da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, facto registado pelo Diário de Lisboa, no próprio dia do evento.

Tanto quanto julgamos saber, tratou-se da primeira vez que elementos do Corpo de Bombeiros receberam medalhas da co-denominada "Confederação de Associações e Corporações de Bombeiros".


Por sua vez, o "Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses", de Novembro e Dezembro de 1953, noticiou, com pormenor, a intervenção dos BVAC aquando do temporal, salientando, a par de outros, o seu valor e coragem, conforme se transcreve:

"Em Agualva-Cacém, logo de madrugada, do referido dia 16, se iniciaram os pedidos de socorros, a que imediatamente acorreram os voluntários da localidade, que agiram conforme as circunstâncias aconselhavam, socorrendo e salvando as pessoas que se encontravam em sério risco, visto a cheia ter aumentado, rapidamente, o volume das águas e estas inundarem bastantes habitações.
Dada a impetuosidade da corrente e, ainda, os embaraços provocados pelos muitos e variados objectos que ela arrastava, a travessia tornou-se bastante perigosa, obrigando os bombeiros a servirem-se de espias para se protegerem e evitarem o desiquilíbrio constante originado pela violência do curso da água.
Com todos estes transtornos e dificuldades de toda a natureza, próprios em sinistros desta ordem, os esforçados voluntários de Agualva-Cacém conseguiram salvar as seguintes pessoas:
António Fernandes Nunes, duas crianças filhas de João Carragoso Coelho, Messias Lopes, Maria da Conceição, Maria Lopes, António de Jesus Coelho, João Fernandes Coelho, Cândido Correia, Aurora Formosa, Alexandrino Baptista, João dos Santos, Rosalina Maria, Rosalina Duarte, António Ferreira, Narcisa de Jesus, Rosalina de Sousa, Gilberto dos Santos, Conceição  Martinho, Júlio Caldeira, Aida dos Santos Martins e seus filhos, José, Maria Fernanda, Carlos, Manuel e Jorge Manuel.
Foram salvos, também, quatro cães, um gato, três cabras e vária criação.
Infrutíferos se tornaram todos os esforços empregados para salvar Maria Amélia Esteves Saraiva e Alfredo Eugénio, cujos cadáveres foram mais tarde encontrados, o da primeira soterrado nos escombros da sua casa, e o do outro, na Quinta da Nóra, semi enterrado no lôdo.
Além dos serviços mencionados, os voluntários de Agualva-Cacém procederam a numerosos esgotamentos em propriedades, a diversos desvios de água, retiraram um automóvel do rio e levantaram e transportaram um ferido e dois cadáveres.
No seu relatório, o respectivo comandante realça a necessidade, para maior eficácia do serviço, de botas de borracha e casacos impermeáveis, para mais de metade do seu pessoal, suestes para todos os bombeiros, cabos, bomba própria para esgotamentos, uma viatura tipo 'jeep' e a supressão de várias insuficiências de instalação no quartel."


Pesquisa/Texto: LMB

Imagem do topo: "Diário de Lisboa", 16 de Dezembro de 1953 (escombros da casa em Agualva, onde residia Maria Amélia Esteves Saraiva, popularmente conhecida por "Amélia Cigana")

FACTO 18

A fotografia em presença, da autoria de José Neto, ex-dirigente dos Bombeiros Voluntários de Alcabideche, coleccionador e pesquisador da história dos bombeiros portugueses, documenta um dos momentos de afirmação da longa e brilhante carreira de Artur Lage.

A 7 de Setembro de 1986, por ocasião do 20.º aniversário do grande fogo na Serra de Sintra, como comandante mais antigo e em plena actividade, comandou o desfile dos corpos de bombeiros que intervieram naquele trágico sinistro.

Teve o autor destas linhas o privilégio de acompanhar de perto diferentes fases do evento, podendo por isso dar aqui testemunho da impressionante postura do Comandante Lage. O maior entre os maiores!

Realizado em Sintra, com percurso compreendido entre a Avenida dos Combatentes da Grande Guerra e o Terreiro Rainha D. Amélia, o desfile, seguido de cerimónia evocativa, defronte do Palácio Nacional, foi assistido pelo Ministro de Estado e da Administração Interna, Eurico de Melo, que tomou assento na tribuna de honra, para além de outras entidades.

O decano dos comandantes integrou ainda a Comissão Executiva investida da organização das celebrações da efeméride, cujo programa compreendeu várias actividades, apoiadas pela Liga dos Bombeiros Portugueses.

Recuando mais no tempo, de 6 a 12 de Setembro de 1966, Artur Lage esteve na Serra de Sintra, com os seus homens, sempre na linha da frente e sem dar tréguas a um fogo demolidor que parecera não ter fim. Correu, inclusive, neste incêndio, grave perigo, quando uma súbita mudança na orientação do vento fez com que as chamas se alterassem, ameaçando a sua integridade física e do pessoal que comandava. Valeu-lhe, como habitualmente, uma inabalável capacidade de auto-domínio, reflectida na adopção de soluções adequadas para os problemas. Destemido e encorajador, deu ordem para se refugiarem debaixo do pronto-socorro com que trabalhavam. Entre os demais, chamou a si a função de agulheta, conseguindo encharcar o espaço envolvente. O fogo passou bem próximo de todos, a ponto de fazer suster a respiração, mas, exceptuando alguns danos na pintura da viatura, tudo acabou em bem… graças ao COMANDANTE LAGE.

Era assim o nosso homenageado: ACIMA DE TUDO, BOMBEIRO!


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: José Neto

FACTO 17

"Um bombeiro de Agualva arrisca a vida para salvar um gato", informava, com o devido destaque, o Diário de Notícias, na sua edição de 5 de Outubro de 1934, ao relatar o trágico acontecimento que consistiu o grande incêndio do Palácio de Queluz, deflagrado no dia anterior.

Quanto ao facto em si, lia-se nas colunas daquele prestigiado periódico da capital: "Um bombeiro de Agualva, Artur Lage, notando que numa das salas da residência do sr. Miguel Bruschi, já pasto das chamas, estava um gato a miar desesperadamente, entrou resoluto, com manifesto desprezo pela vida e salvou o bicho. Segundos depois o rumor de uma derrocada atrovoava os ares."

Em virtude da sua dedicação no salvamento praticado, a Sociedade Protectora dos Animais conferiu a Artur Lage a Medalha de Cobre da instituição, cujo diploma, datado de 7 de Novembro de 1934, se reproduz.

Foi, no limiar de uma auspiciosa carreira, a primeira de muitas - e bem merecidas - condecorações.


Pesquisa/Texto: LMB

Foto do topo: FS Costeiro (publicada na revista "Ilustração", de 16 de Outubro de 1934)

FACTO 16

O Comandante Artur Lage viveu os maiores progressos técnico-operacionais verificados no seu tempo, em matéria do socorrismo confiado a bombeiros.

Quando admitido, a 6 de Novembro de 1932, os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) dispunham apenas de uma bomba braçal, sistema aspirante-premente, colocada sobre um carro de duas rodas movido pelo próprio pessoal. A par disso, o pouco apetrechamento que restava resumia-se a escadas e espias.

No espaço de menos de um ano, viu entrar ao serviço o primeiro veículo automóvel. E desde então nunca mais deixou de testemunhar a gradual sofisticação do material, tanto ao nível do serviço de incêndios como do serviço de saúde.

Neste facto damos a conhecer os primitivos meios de acção dos BVAC, permitindo-nos destacar, pelo impacto que teve na rápida resposta às solicitações, o pronto-socorro Hudson, segundo julgamos saber, modelo Super Six, dos anos 20.

Nele, por exemplo, Artur Lage seguiu para o grande incêndio do Palácio de Queluz, deflagrado em 4 de Outubro de 1934, sinistro no qual o então Bombeiro de 3.ª Classe se destacou com risco da própria vida.

O pronto-socorro Hudson, que antes servira como viatura de turismo, entrou oficialmente ao serviço no dia 10 de Setembro de 1933, data da sua inauguração, o que aconteceu em ambiente festivo e serviu de pretexto para a realização de um simulacro de incêndio numa habitação.

A aquisição do chassis representou um investimento de dois mil e quinhentos escudos, verba apurada através da organização de diferentes iniciativas de recolha de fundos.

O carroçamento esteve a cargo dos próprios bombeiros, que o executaram nas instalações do quartel-sede.

Tal como a generalidade dos pronto-socorros da época, não contemplava depósito de água, pelo que o combate aos incêndios exigia uma grande resistência física da parte dos voluntários. Consistia, na prática, num transporte de pessoal e material.

Quando possível, a água era obtida de poços, ribeiras e de outros mananciais próximos dos locais sinistrados com recurso a chupadores que, ligados à bomba manual já existente e entretanto montada no referido veículo, permitiam alimentar as mangueiras munidas de agulhetas.

Naquele tempo, os incêndios em habitações ocorriam de modo pouco frequente, predominando os incêndios rurais e florestais. Na falta de melhor agente extintor, o pessoal combatente, disposto em filas, procedia ao batimento do fogo com ramos de árvores.

Somente no final dos anos 30 veio a ser adquirido a primeira moto-bomba, colocada sobre um novo pronto-socorro, que embora carroçado de acordo com os requisitos em voga, também não oferecia condições de autonomia de água.

O primeiro pronto-socorro dotado de tanque e bomba acoplada foi inaugurado em 11 de Outubro de 1952. Carroçado sobre um chassis marca Chevrolet, tinha capacidade para transportar mil litros de água, enfileirando entre as viaturas mais modernas dos bombeiros portugueses.


Pesquisa/Texto: LMB