FACTO 10


A 2 de Outubro de 1988, era inaugurado, em Agualva-Cacém, o Monumento ao Bombeiro Voluntário, com a presença do Comandante Homem de Gouveia, na qualidade de representante do então Presidente da República, Mário Soares.

Embora ainda em convalescença de uma intervenção cirúrgica a que havia sido submetido recentemente, devido à fractura do colo do fémur, contraída no regresso de um incêndio, o Comandante Artur Lage fez questão de estar presente, proferindo calorosas palavras de exaltação das virtualidades do bombeiro português.

Artur Lage integrou a Comissão de Honra do evento e, anteriormente, dispensou todo o seu apoio aos trabalhos da Comissão Executiva para o Monumento ao Bombeiro Voluntário, acompanhando-os com enorme entusiasmo.

O Monumento ao Bombeiro Voluntário, da autoria do escultor Victor Paula, situado ao cimo da Avenida dos Bons Amigos, foi erigido através de subscrição pública, características que são aprofundadas no documento que reproduzimos, disponibilizado por Jorge Trigo, um dos membros da Comissão Executiva, e que no exercício de funções autárquicas e associativas privou com o Comandante Artur Lage.

No decurso da cerimónia de inauguração, destacou-se a atitude do Comandante Homem de Gouveia que, homenageando os vulgarmente designados "soldados da paz" na pessoa de Artur Lage, afirmou, nestes termos, ao dirigir-se a todos os bombeiros em formatura: "Não se abraçam estátuas, mas abraçam-se homens de ferro. Por isso vou dar um abraço ao vosso Comandante".


Pesquisa/Texto: LMB

FACTO 9

Artur Lage foi sempre um bombeiro de excepção.

Parafraseando, Duarte Caldeira, ex-Presidente da Direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, tratou-se de um "'guerreiro' de muitas e heróicas batalhas pela preservação de vidas e haveres".

Nunca temeu a morte em serviço, pese embora várias vezes a tivesse sentido por bem perto.

"Um Bombeiro deve ser corajoso, não inconsciente". Era este o seu modo de pensar e agir, de resto transmitido às diferentes gerações de bombeiros que o acompanharam em 56 anos de bombeiro, 35 dos quais como comandante, primeiro interinamente e depois na situação de efectividade.

Recordemos uma das muitas situações perigosas em que interveio, registadas pela imprensa da capital, a respeito de um desastre num poço no então lugar de Agualva, mais precisamente na Abelheira:

"Apavorados com o desastre, o Serra e o Carroça correram pela quinta fora a gritar alucinados: 'Socorro! Socorro! O Rosa está no fundo do poço?'
Um popular apareceu, num pulo, nos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém e logo o seu comandante, sr. Jorge dos Santos; o 2.º comandante Gomes Fragoso; o bombeiro-chefe, sr. Artur Lage, e outros bombeiros se dirigiram ao local, com um pronto-socorro e a ambulância.
Aquilo era um montão de pedras e de terra. Morrera o pobre António Rosa!
Mas, de repente, o sr. Artur Lage agarrou-se a uma corda e desceu - e teve uma ideia. Se ele estivesse vivo? Gritou-lhe:
- Rosa! Ó Rosa!... Ó António!...
Das entranhas da terra, dos confins daquele montão de entulho, veio até cá fora uma voz sumida:
- Doi-me!... Doi-me!... Esta pedra!... Não posso tirá-la!... Doi-me tanto!... Chamem a Lucília!... Deus do céu, ajudem-me!...
Nos olhos dos valorosos bombeiros brilharam lágrimas de emoção. O António estava vivo, sob toneladas de pedras. Era preciso salvá-lo!
- Vamos a isto rapazes! - gritou o 2.º comandante dos bombeiros.
Sem mais ordens, três homens se juntaram, lá no fundo do poço, ao bombeiro Lage - José Peixinho, Álvaro Valentim e Joaquim Cabaço. Eles sabiam que mais derrocadas ia dar-se; sabiam que podiam morrer, esmagados sob as pedras; sabiam que, a dezoito metros de profundidade, com os gazes e os pedaços de penedo - a morte estava a dois passos. Deixá-lo! Estas pessoas humildes e ignoradas não pensavam em nada disso; o que eles queriam era salvar uma vida."

Esta é apenas parte de uma longa e pormenorizada reportagem do jornal "O Século", publicada em 9 de Setembro de 1944, onde o nome de Artur Lage se destaca.

Resta dizer que, após longo período de extenuante trabalho, a vítima foi retirada com vida do interior do poço, sendo transportada para o Hospital de S. José, em Lisboa. Lamentavelmente, veio a falecer pouco tempo depois de ter dado entrada naquele estabelecimento hospitalar, não resistindo aos ferimentos provocados pelas toneladas de terra e pedras que o soterraram durante dez horas. Triste destino! Era assim dado como inglório o esforço de Artur Lage e de todos quantos, ombro a ombro, tudo fizeram para salvar aquela vida, incluindo o dr. Bastos Costa, distinto médico de Agualva-Cacém, que permaneceu no local do acidente para dispensar todos os cuidados necessários ao infeliz António Rosa.

Mais uma página de inquestionável solidariedade humana; mais um acto de heroísmo cometido por quem sempre se assumiu como sendo um homem sentimental e que dizia: "Sinto quando a pessoa sofre".


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Lage Cristo

FACTO

"Foi um acontecimento, pois, bastante participativo onde se aproveitou a oportunidade para o descerramento de um busto perante a formatura dos Bombeiros. Várias foram as intervenções e as homenagens recebidas, algumas lidas publicamente como por exemplo o telegrama do Presidente da Câmara Municipal de Sintra de que se destacam algumas referências: 'Não posso esquecer o trabalho denodado que o Comandante Artur Lage levou a cabo durante 32 anos como Comandante aos quais se devem acrescer mais 18 como Bombeiro, por isso me associo à homenagem que lhe é feita considerando que o Município de Sintra, a Freguesia de Agualva-Cacém, a Câmara Municipal e eu próprio temos uma dívida de gratidão, que cumpre salientar'. 
Porém o momento mais emocionante foi quando se procedeu à leitura da carta da sua filha Rita Lage.
Para o homenageado foi com surpresa que escutou emocionado palavras profundamente sentidas.
'Mensagem de homenagem e gratidão, admiração e amor que eu tanto nutro por este homem bom, sempre humilde, sempre pronto a dar todo o seu máximo para ajudar o seu semelhante.'
Estas foram algumas das palavras iniciais da carta. Mas outras se destacam - 'Quero que saibam, senhores, que o Comandante Lage, além de conhecido por todo o País, foi também sempre um bom Pai e Avô... ao olharem este busto, ele representa não um homem vulgar, mas sim um homem excepcional em todos os sentidos, como não tenho conhecimento de nenhum outro.'" 


Nota: Excerto da notícia publicada no jornal "Bombeiros de Portugal", da Liga dos Bombeiros Portugueses, em Dezembro de 1989, relativa à homenagem prestada ao Comandante Artur Lage, pela Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, aquando da sua passagem ao Quadro Honorário.
Era então Presidente da Câmara Muncipal de Sintra o saudoso Engenheiro Fernando Tavares de Carvalho.

FACTO 8

"20 feridos sem gravidade num choque de comboios na estação do Cacém", noticiava o "Diário de Lisboa" em 21 de Julho de 1946, registando a dada altura que o "sr. Artur Lage, tratou dois sinistrados".

De acordo com informação da época, os Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC) acorreram ao acidente sob o comando de Artur Lage, então Chefe, deslocando para o local todo o seu material: uma ambulância e dois pronto-socorros. Destaque-se ainda a participação do Serviço de Saúde dos BVAC, cuja intervenção no sinistro constituiu uma mais-valia, nomeadamente na assistência a pessoas feridas, por via da execução de pensos.

Bombeiro versátil, Artur Lage adquiriu muito cedo experiência no domínio da enfermagem. De resto, o seu ingresso no Corpo de Bombeiros, verificado a 6 de Novembro de 1932, deu-se como Aspirante do Serviço de Saúde. Em 1940, quando promovido a Bombeiro de 1.ª Classe, foi nomeado Ajudante de Enfermeiro, facto que denota a sua desusada qualificação.


Pesquisa/Texto: LMB

FACTO 7

"FEDERAÇÃO DOS BOMBEIROS DO DISTRITO DE LISBOA

Como órgão intermédio entre as Associações e a Liga dos Bombeiros Portugueses, foi constituída há cerca de dois anos a Federação dos Bombeiros do Distrito de Lisboa, na qual estão filiadas 52 corporações de bombeiros do distrito.
Dos actuais Corpos Gerentes da Federação faz parte a nossa Associação, representada na Direcção e no Conselho Fiscal, respectivamente, pelo nosso Presidente da Direcção e pelo nosso Comandante, o que bem demonstra o prestígio que a nossa Associação desfruta entre as suas congéneres."


In Relatório e Contas da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém referente ao ano de 1975.

FACTO 6

"SANGUE-FRIO E COMOÇÃO

É notável a frieza com que, no decurso da entrevista, o velho comandante fala de todas as histórias vividas. O controlo de si mesmo e o sangue frio, que, provavelmente, constituíram um dos seus principais trunfos como bombeiro, ressaltam nas recordações que comunica ao jornalista.
A hipótese de insensibilidade relativamente às tragédias humanas ficou, no entanto, completamente posta de parte, quando Artur Lage, sem ter sido suscitada a lembrança, foi buscar aos recantos da memória a catástrofe em que um comboio ficou soterrado perto de Caxias.
Comovido, relata-nos: 'Lembro-me quando estávamos a tirar um mulherzinha do meio dos destroços. Entalada entre uns ferros e um banco, só tinha palavras para nós, não para ela. Dizia-nos, os senhores são muito bons, obrigado, muito obrigado, Deus voz proteja, e poucos minutos decorridos, morria-nos nas mãos...'
Recorda, de um outro ângulo, a criança que, a brincar com uma boneca, se aproxima do fogão da casa, o brinquedo pega fogo e, atrás dele, começa a arder o vestido da menina, que fica queimada da cintura para baixo: 'Levámo-la à pressa para o hospital e ficámos felizes, algumas semanas depois, porque os pais vieram cá, por termos salvo a vida à miúda, que ficou sem problemas', refere, sorrindo.
O acidente que sofreu, há pouco tempo, verificou-se pouco depois de ter estado 30 horas consecutivas no combate ao tremendo incêndio do Chiado. E conta outras catástrofes a que a corporação, sob o seu comando, pôs cobro: as explosões na antiga fábrica da pólvora em Barcarena, os terríveis choques ferroviários no Algueirão e na Amadora, os impressionantes e mortais fogos na Serra de Sintra, o socorro às enormes cheias que se sucederam na região, desde 1937 a 1983, por quatro vezes, com 15 anos de intervalo entre uma e outra. Na primeira faleceu um bombeiro da Agualva, tal como sucederia, décadas mais tarde, com um seu camarada, no caminho para enfrentar um incêndio.
Um rol de sacrifícios. Artur Lage, que também os viveu, contempla, ao olhar para trás e faz o balanço: 'Valeu a pena'."


Nota: Excerto da reportagem publicada no "Diário Notícias", em 21 de Novembro de 1988, intitulada "Memória viva das tristezas e lutas de um país: Mais antigo comandante abandona funções aos 77", assinada pelo jornalista Artur Sardinha.

Foto: DN | Legenda: "O comandante Artur Lage mostra os troféus, que conquistou por seis vezes, correspondentes ao maior quantitativo de missões feitas num ano, em Portugal, por um só bombeiro"

FACTO 5

"Testemunhos sentidos (...) Emocionado, José Alberto Caetano, comandante dos Bombeiros de Almoçageme, não esconde a sua "grande admiração pelas suas decisões, postura e maneira de ser deste homem", que tinha por referência. Manuel de Sousa, comandante dos Bombeiros de Algueirão-Mem Martins, destaca a sua "personalidade forte, que fez dele um líder carismático", ao afirmar-se pela positiva. Para António Gualdino, comandante dos Bombeiros de Belas, não residem dúvidas que "Artur Lage foi um grande bombeiro que Portugal perdeu para sempre."


In "A Pena", 2 de Dezembro de 1999 (reportagem da sessão de apresentação do livro "Comandante Artur Lage - Vida e Obra, 1911-1999", assinada pelo jornalista Jorge Manuel Tavares).

FACTO 4

"COMANDANTE ARTUR LAGE CIDADÃO
DE MÉRITO DE AGUALVA-CACÉM

Por decisão unânime da Junta de Freguesia de Agualva-Cacém, por ocasião das Comemorações do Primeiro Aniversário da elevação à categoria de Vila, o Comandante do Corpo de Bombeiros da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, Sr. Artur Lage, foi galardoado com a Placa de Cidadão de Mérito de Agualva-Cacém.
Este Galardão, atribuído pela primeira vez, distinguiu a dedicação, a generosidade, a integridade moral e a entrega à causa do engrandecimento local do Comandante Lage, afirmando-o como um exemplo a apontar a toda a comunidade local."


In "Aqua Alba", Boletim Informativo da Junta de Freguesia de Agualva-Cacém, Setembro/Outubro 1986.

Na foto: Fachada do edifício onde funcionou a extinta Junta de Freguesia de Agualva-Cacém, na orgânica da qual, em 1953, Artur Lage foi designado Regedor Substituto (Arquivo LMB).

FACTO 3

"Em 1970, quando da criação do Serviço Nacional de Ambulâncias (SNA), como Oficial da Brigada de Trânsito, fui nomeado representante para a Comissão Instaladora dos então Postos de Ambulância/115. Uma das minhas tarefas, em função dos dados obtidos através da intervenção conjunta dos Bombeiros e da autoridade policial, nos graves sinistros rodoviários, era propor à Inspecção de Incêndios da Zona Sul quais os Corpos que, na nossa modesta opinião, dariam maior garantia em termos de rapidez, consoante a sua localização, bom relacionamento dos efectivos e, fundamentalmente, eficiência na área do socorrismo.
O Comandante Lage era um homem que sabia planear, prever os condicionalismos do futuro e, em permanência, acompanhar as novas técnicas de actuação.
E assim providenciou, nessa época, que a maioria do seu efectivo estivesse habilitado com os antigos Cursos Essenciais de Socorrismo da Cruz Vermelha Portuguesa, sonhando com uma ambulância do SNA para a Corporação.
Reunidos os requisitos então exigidos, não tive a mínima dúvida, por mérito próprio, propor à Comissão Coordenadora a atribuição, aos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, da referida viatura, facto que foi aceite para cobrir o troço Tercena-Ramalhão da velha Estrada Nacional 249. Foi em Portugal, corria o ano de 1971, a primeira Associação a ter Posto SNA/115. E assim aconteceu porque em Agualva-Cacém havia nos seus Bombeiros um homem responsável chamado Artur Lage!"


Nota: Excerto do testemunho do Tenente-Coronel José Francisco do Rio França de Sousa, publicado no livro "Comandante Artur Lage - Vida e Obra, 1911-1999", da autoria de Jorge Trigo e Luís Miguel Baptista, editado em 1999 pela Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém.