FACTO 6

"SANGUE-FRIO E COMOÇÃO

É notável a frieza com que, no decurso da entrevista, o velho comandante fala de todas as histórias vividas. O controlo de si mesmo e o sangue frio, que, provavelmente, constituíram um dos seus principais trunfos como bombeiro, ressaltam nas recordações que comunica ao jornalista.
A hipótese de insensibilidade relativamente às tragédias humanas ficou, no entanto, completamente posta de parte, quando Artur Lage, sem ter sido suscitada a lembrança, foi buscar aos recantos da memória a catástrofe em que um comboio ficou soterrado perto de Caxias.
Comovido, relata-nos: 'Lembro-me quando estávamos a tirar um mulherzinha do meio dos destroços. Entalada entre uns ferros e um banco, só tinha palavras para nós, não para ela. Dizia-nos, os senhores são muito bons, obrigado, muito obrigado, Deus voz proteja, e poucos minutos decorridos, morria-nos nas mãos...'
Recorda, de um outro ângulo, a criança que, a brincar com uma boneca, se aproxima do fogão da casa, o brinquedo pega fogo e, atrás dele, começa a arder o vestido da menina, que fica queimada da cintura para baixo: 'Levámo-la à pressa para o hospital e ficámos felizes, algumas semanas depois, porque os pais vieram cá, por termos salvo a vida à miúda, que ficou sem problemas', refere, sorrindo.
O acidente que sofreu, há pouco tempo, verificou-se pouco depois de ter estado 30 horas consecutivas no combate ao tremendo incêndio do Chiado. E conta outras catástrofes a que a corporação, sob o seu comando, pôs cobro: as explosões na antiga fábrica da pólvora em Barcarena, os terríveis choques ferroviários no Algueirão e na Amadora, os impressionantes e mortais fogos na Serra de Sintra, o socorro às enormes cheias que se sucederam na região, desde 1937 a 1983, por quatro vezes, com 15 anos de intervalo entre uma e outra. Na primeira faleceu um bombeiro da Agualva, tal como sucederia, décadas mais tarde, com um seu camarada, no caminho para enfrentar um incêndio.
Um rol de sacrifícios. Artur Lage, que também os viveu, contempla, ao olhar para trás e faz o balanço: 'Valeu a pena'."


Nota: Excerto da reportagem publicada no "Diário Notícias", em 21 de Novembro de 1988, intitulada "Memória viva das tristezas e lutas de um país: Mais antigo comandante abandona funções aos 77", assinada pelo jornalista Artur Sardinha.

Foto: DN | Legenda: "O comandante Artur Lage mostra os troféus, que conquistou por seis vezes, correspondentes ao maior quantitativo de missões feitas num ano, em Portugal, por um só bombeiro"