FACTO 9

Artur Lage foi sempre um bombeiro de excepção.

Parafraseando, Duarte Caldeira, ex-Presidente da Direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém, tratou-se de um "'guerreiro' de muitas e heróicas batalhas pela preservação de vidas e haveres".

Nunca temeu a morte em serviço, pese embora várias vezes a tivesse sentido por bem perto.

"Um Bombeiro deve ser corajoso, não inconsciente". Era este o seu modo de pensar e agir, de resto transmitido às diferentes gerações de bombeiros que o acompanharam em 56 anos de bombeiro, 35 dos quais como comandante, primeiro interinamente e depois na situação de efectividade.

Recordemos uma das muitas situações perigosas em que interveio, registadas pela imprensa da capital, a respeito de um desastre num poço no então lugar de Agualva, mais precisamente na Abelheira:

"Apavorados com o desastre, o Serra e o Carroça correram pela quinta fora a gritar alucinados: 'Socorro! Socorro! O Rosa está no fundo do poço?'
Um popular apareceu, num pulo, nos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém e logo o seu comandante, sr. Jorge dos Santos; o 2.º comandante Gomes Fragoso; o bombeiro-chefe, sr. Artur Lage, e outros bombeiros se dirigiram ao local, com um pronto-socorro e a ambulância.
Aquilo era um montão de pedras e de terra. Morrera o pobre António Rosa!
Mas, de repente, o sr. Artur Lage agarrou-se a uma corda e desceu - e teve uma ideia. Se ele estivesse vivo? Gritou-lhe:
- Rosa! Ó Rosa!... Ó António!...
Das entranhas da terra, dos confins daquele montão de entulho, veio até cá fora uma voz sumida:
- Doi-me!... Doi-me!... Esta pedra!... Não posso tirá-la!... Doi-me tanto!... Chamem a Lucília!... Deus do céu, ajudem-me!...
Nos olhos dos valorosos bombeiros brilharam lágrimas de emoção. O António estava vivo, sob toneladas de pedras. Era preciso salvá-lo!
- Vamos a isto rapazes! - gritou o 2.º comandante dos bombeiros.
Sem mais ordens, três homens se juntaram, lá no fundo do poço, ao bombeiro Lage - José Peixinho, Álvaro Valentim e Joaquim Cabaço. Eles sabiam que mais derrocadas ia dar-se; sabiam que podiam morrer, esmagados sob as pedras; sabiam que, a dezoito metros de profundidade, com os gazes e os pedaços de penedo - a morte estava a dois passos. Deixá-lo! Estas pessoas humildes e ignoradas não pensavam em nada disso; o que eles queriam era salvar uma vida."

Esta é apenas parte de uma longa e pormenorizada reportagem do jornal "O Século", publicada em 9 de Setembro de 1944, onde o nome de Artur Lage se destaca.

Resta dizer que, após longo período de extenuante trabalho, a vítima foi retirada com vida do interior do poço, sendo transportada para o Hospital de S. José, em Lisboa. Lamentavelmente, veio a falecer pouco tempo depois de ter dado entrada naquele estabelecimento hospitalar, não resistindo aos ferimentos provocados pelas toneladas de terra e pedras que o soterraram durante dez horas. Triste destino! Era assim dado como inglório o esforço de Artur Lage e de todos quantos, ombro a ombro, tudo fizeram para salvar aquela vida, incluindo o dr. Bastos Costa, distinto médico de Agualva-Cacém, que permaneceu no local do acidente para dispensar todos os cuidados necessários ao infeliz António Rosa.

Mais uma página de inquestionável solidariedade humana; mais um acto de heroísmo cometido por quem sempre se assumiu como sendo um homem sentimental e que dizia: "Sinto quando a pessoa sofre".


Pesquisa/Texto: LMB
Foto: Arquivo de Artur Lage Cristo